segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Golpeado pela traição de um Amigo


A noite em que prederam a Jesus, foi a mais angustiante da vida do mestre. Foi a noite em que um dos seus amados discípulos o traiu. Era uma noite densa. De repente, pressentindo que a hora havia chegado, acordou definitivamente os seus amigos e disse: "É chegada a hora, eis que o traidor se aproxima" (Mateus 26:46).
Se o leitor analisar atentamente essa frase, verá que ela carrega um sabor amargo nas entrelinhas. Jesus não disse: "Eis que uma escolta de soldados se aproxima", mas, "Eis que o traidor se aproxima". Por que Jesus não apontou a escolta de soldados aos seus solenes discípulos, já que ela é que estava cumprindo as ordens do sinédrio? Porque, embora a escolta viesse com armas e o prendesse com violência, a dor que estava sentindo pela traição de Judas era maior do que a causada pela agressividade de centenas de soldados.
A dor provocada por Judas Iscariotes feria a sua alma, e a dor provocada pelos soldados do sinédrio machucava o seu corpo. Ele só não mergulhou num mar de frustração porque protegia sua emoção e não esperava muito das pessoas as quais se doava. Por isso, logo se refazia. Não é a quantidade de estímulos estressantes que nos faz sofrer, mas a qualidade deles. A dor da traição é indescritível.
O mestre sempre tratava Judas com amabilidade. Nunca o expôs publicamente. Nunca o desprezou nem o diminui diante dos demais discípulos, embora soubesse das suas intenções. Se estivéssemos no lugar de Jesus e soubéssemos que Judas nos trairia, nós o teríamos apontado e banido da comunidade dos discípulos. Ele jamais faria parte de nossa história de vida, pois quem consegue conviver com um traidor?
Cristo conseguiu. Sabia que havia um traidor no meio dos discípulos, mas o tratou com dignidade e nunca o excluiu. Sua atitude é impensável. Ele nem mesmo impediu a traição de Judas, apenas o levou a repensar sua atitude. Que estrutura emocional se escondia dentro desse mestre da Galiléia para que ele suportasse o insuportável? Muitas ONGs (organizações não-governamentais) lutam para extinguir os crimes contra a consciência e para preservar os direitos humanos, mas Jesus foi muito além. Não apenas acolheu leprosos, cuidou de prostitutas e respeitou os que pensavam contrariamente a ele, mas também chegou ao cúmulo de tratar com afeto seu próprio traidor.
Não poucas pessoas excluem de suas vidas determinados parentes, amigos e até filhos ao se sentirem agredidos por seus comportamentos. Não toleram as pessoas que as ofendem ou contrariam. Mas o mestre de Nazaré era diferente, ele foi de fato o mestre da tolerância e da solidariedade. Não se deixava dominar pelas contrariedades. Filtrava as ofensas e os atos agressivos que lhes dirigiam, e isso o tornava livre no território da emoção. Assim, ele podia amar as pessoas. E amá-las não era um sacrifício para ele, mas um exercício prazeroso.
Muitos não possuem um filtro emocional. Para esses, viver em sociedade é um problema, parece-lhes impossível evitar todas as contrariedades e os atritos interpessoais, estão sempre angustiados. Não conseguem amar os outros nem a si mesmos. Fazem de sua emoção uma lata de lixo.
É menos traumático viver com mil animais do que com um ser humano. Todavia, apesar de a convivência social ser uma fonte de estresse, não conseguimos viver ilhados, pois não suportamos a solidão. Nunca houve tanta separação de casais como atualmente. Entretanto, nem por isso as pessoas deixam de se unir, de se casar. Por ter um excelente filtro emocional, o mestre de Nazaré sentia prazer em conviver com as pessoas, ainda que o decepcionassem com frequência. Ele amava o ser humano independentemente dos seus erros e da sua história.
Se houve uma pessoa que proferiu um discurso em sintonia com a sua prática, essa pessoa foi Jesus Cristo. Ele discursou: "Amai vossos inimigos", e os amou até o fim. Por isso teve o desprendimento de chamar seu traidor de amigo no momento da traição.
O compromisso primordial de Jesus era com a sua consciência, e não com o ambiente social. Não distorcia seu pensamento nem procurava dar respostas para agradar às pessoas que o circundavam. Por ser fiel a si mesmo, frequentemente encolvia-se em embaraços e colocava sua vida em grave perigo. Considerava a fidelidade à sua consciência mais importante do que qualquer tipo de acordo escuso ou dissimulação de comportamento.
Aquele que foi fiel à sua consciência e que ensinou seus discípulos a andarem altaneiramente no mesmo caminho recebeu um golpe pelas costas. Judas não aprendeu a lição, foi infiel à sua consciência. A traição foi o segundo sofrimento pelo qual Cristo passou. O seu cálice não começou na cruz, mas no jardim do Getsêmani.

Conclusão: A maior dor sofrida pelo Mestre, não foi a dor causada pelos cravos que furavam a sua carne com as batidas estridentes daquele martelo, mas a dor que com a sutiliza de um beijo rasgou a sua alma. Nada é tão doloroso e sufocante quanto a traição de um amigo e Jesus bem o sabia. Estava pensando se realmente o cálice que Jesus pediu para ser afastado seria mesmo a cruz ou o beijo de Judas, pois, a Cruz como eu disse, rasgou a sua carne enquanto o beijo de Judas, como uma faca, golpeou a sua alma.
Se um(a) grande amig(a) te traiu faça como o Mestre do Amor, perdoe, pois, o perdão protege a nossa alma e cura o nosso coração.

Deus abençoe a todos em nome de Jesus!
Em Cristo,
Fernando.

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